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| As bonecas hiper-realistas estão por toda parte ou é só uma ilusão das redes?. Foto: Ilustração/Freepik (freepic-diller) |
Os bebês reborn, bonecas hiper-realistas, tornaram-se um fenômeno notável, especialmente nas redes sociais. Sua popularidade gerou diversas discussões, indo desde processos de guarda e até a menção em projetos de lei, além de aparições em produções televisivas.
Recentemente, a confusão entre o real e o artificial teve consequências graves. Em Belo Horizonte, um homem de 36 anos agrediu uma criança de quatro anos, acreditando ser um bebê reborn e que seus acompanhantes estariam "furando fila" em um food truck. Segundo especialistas consultados pela DW, esse incidente é um reflexo preocupante de como a superexposição de fenômenos digitais pode culminar em situações extremamente prejudiciais, muito além do apego comum de colecionadores. A onipresença aparente dessas bonecas nas redes sociais cria uma falsa percepção de sua ubiquidade.
Por que tanta polêmica?
A psicanalista Fabiana Guntovitch, em entrevista à CNN Brasil, aponta que a sociedade tende a desaprovar o ato de brincar na vida adulta, em particular quando associado ao universo feminino. Ela argumenta que há uma interferência clara dos papéis de gênero predeterminados. Guntovitch observa: "Um menino brincar de boneco não é aceito nem na infância, quem dirá na vida adulta. Estamos falando de estereótipos e de machismo estrutural."
Realidade digital e opinião algorítmica
Uma pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) alertou à DW sobre a interconexão e distinção entre o real e o virtual. Para ela, as redes sociais desempenham um papel crucial na disseminação de conteúdo, especialmente aqueles de natureza polêmica, que rapidamente se tornam tendências.
Mas como esses conteúdos nos alcançam? A resposta está nos algoritmos. Conforme o SEBRAE, esses sistemas identificam quais publicações devem ser exibidas a um maior ou menor número de pessoas, ranqueando os resultados nos feeds com base na relevância para cada usuário. A combinação de conteúdo polêmico com a lógica algorítmica das redes sociais cria "bolhas de opinião", onde indivíduos se agrupam entre "contra" e "a favor".
Impulsividade, extremismo e o mercado dos reborns
O relatório da Market Report Analytics, divulgado pelo InfoMoney, aponta que, no universo digital do TikTok, com suas 840 mil publicações sob a hashtag #rebornbaby, apenas uma pequena parcela — 2% — provém dos próprios "pais" dessas réplicas.
A pesquisa também destaca um crescimento anual de 8% no mercado de bebês reborn, que atualmente gera um faturamento de aproximadamente 200 milhões dólares. Embora esse valor represente uma fatia modesta do setor global de bonecas, que movimenta cerca de 24 bilhões de dólares, é notável o papel terapêutico desses bebês. Surpreendentemente, 60% das vendas são destinadas a adultos com condições como Alzheimer, que os utilizam como um recurso auxiliar no tratamento.
No Brasil, as bonecas hiper-realistas existem desde os anos 90. Uma fabricante de Campinas, São Paulo, informou ao InfoMoney que a maioria das compras ainda é para crianças. Apesar de não ser um tema novo, a popularidade dos vídeos em redes sociais levou o assunto ao seu pico em maio, segundo o Google Trends.
Uma publicação no site do Dr. Drauzio Varella estabelece uma relação entre as redes sociais e a liberação de dopamina – neurotransmissor associado à busca por prazer –, traçando um paralelo com o vício em drogas. O psiquiatra Vitor Hugo Stangler, em entrevista à DW, sugere que condições como déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno explosivo intermitente e até esquizofrenia podem estar ligadas a desregulações na produção de dopamina.
Ao comentar o caso da agressão em Belo Horizonte, Stangler pondera: "Talvez exista algo de cunho ético e moral para uma pessoa agredir um bebê real achando que é reborn. Mas também há algo de ser intolerante, não aceitar as diferenças, o que aponta também para essa questão". Ele conclui: "O mundo não está cheio de bebê reborn. São bolhas. A gente amplifica porque dá visualização, gera like, gera curtida e gera estranhamento. Parece que estamos vivendo um fenômeno atrás do outro. As coisas são fugazes, daqui a três meses, provavelmente não vamos estar falando mais disso, e sim de outro assunto."
Fontes: sebrae.com.br, www.dw.com, www.cnnbrasil.com.br, www.infomoney.com.br, drauziovarella.uol.com.br, www.facebook.com/InfoMoney
