​Tamanho é documento? Para muitos "sortudos", o excesso pode ser um problema

Narrativa cultural de que "tamanho é documento" gera pressão estética, traumas emocionais e dificuldades na intimidade; sexólogos defendem comunicação aberta para evitar a "lesão empática". Foto: Ilustração/Freepik

Durante décadas, a cultura pop e as expectativas sociais consolidaram a ideia de que um pênis grande seria o símbolo máximo de virilidade e prazer. No entanto, dentro dos consultórios de psicologia e sexologia, o cenário é diferente. Especialistas alertam que o que muitos consideram "sorte" pode, na verdade, ser uma fonte de ansiedade, dor física e traumas emocionais para ambos os parceiros.

O desafio anatômico e a dor física

​A sexóloga Dra. Mindy DeSeta explica que a anatomia nem sempre colabora com o imaginário social. Enquanto o canal vaginal médio mede entre 5 e 10 centímetros, pênis com 18 centímetros ou mais podem causar desconforto severo ao atingir o colo do útero.

​"Muitos clientes relatam dificuldades no sexo penetrativo e oral. O comprimento extra limita as posições e a circunferência maior pode causar lacerações", afirma DeSeta.

Para mitigar esses desconfortos, a especialista recomenda posições que permitam maior controle da profundidade, como o 'papai e mamãe' adaptado ou a 'conchinha'. O uso de lubrificante é fundamental para reduzir o atrito; entretanto, deve ser moderado para evitar o deslizamento excessivo, que pode resultar em uma penetração profunda indesejada.

​A "lesão empática" e o ciclo do trauma

Para além do físico, o impacto psicológico é profundo. O psicólogo Dr. Rod Mitchell identifica um padrão que chama de "lesão empática": o trauma desenvolvido pelo homem ao perceber que está causando dor à pessoa amada.

De acordo com Mitchell, cada sinal de dor da parceria é absorvido pelo homem como um "microtrauma". Esse processo faz com que o organismo passe a encarar a intimidade como uma ameaça, desencadeando respostas fisiológicas defensivas: a disfunção erétil, pois o estresse desvia o fluxo sanguíneo dos genitais, e a ejaculação precoce, como uma tentativa instintiva do corpo de encerrar rapidamente a situação estressante. Esse medo de causar dor gera um distanciamento que, frequentemente, é interpretado de forma equivocada pela parceria como falta de afeto ou desejo.

O estigma do "sortudo"

​Um dos maiores obstáculos para o tratamento é o silêncio. Por serem vistos pela sociedade como privilegiados, esses homens sentem vergonha de admitir suas inseguranças. "Você não consegue falar sobre o medo de machucar quem ama porque isso soa absurdo para a maioria. Essa solidão internalizada é a verdadeira barreira", pontua Mitchell.

Comunicação é a solução

Ambos os especialistas concordam que a saída não é mecânica, mas sim comportamental. A recomendação é transformar a experiência em um processo de exploração conjunta, onde a vulnerabilidade substitui a pressão pela performance "cinematográfica".

"Bom sexo começa com comunicação vulnerável", conclui DeSeta. Ao reconhecer que o problema é uma questão de ajuste e não uma falha pessoal, os casais conseguem quebrar o ciclo de isolamento e construir uma conexão mais criativa e segura.

Fonte: oglobo.globo.com

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