Cientistas transformam fio dental em vacina sem agulha

O método contribui para o aumento de anticorpos nos pulmões, na saliva e até mesmo na medula óssea, assim como vacinas tradicionais. Foto: Reprodução/Freepik/wavebreakmedia-micro

Pesquisadores americanos desenvolvem fio dental que atua como vacina, prometendo imunização indolor e eficaz através da gengiva. A inovação, testada com sucesso em camundongos, abre caminho para uma nova era na administração de vacinas, especialmente em áreas de difícil acesso como boca e nariz.

Cientistas das universidades Texas Tech e Carolina do Norte, nos Estados Unidos, estão revolucionando a forma como pensamos sobre vacinas. Em um estudo recente publicado na revista Nature Bioengineering, eles descreveram o desenvolvimento de um fio dental que funciona como uma vacina, permitindo a imunização sem a necessidade de agulhas. Essa tecnologia inovadora foi capaz de fornecer proteínas e vírus inativados diretamente à gengiva de camundongos, estimulando seus sistemas imunológicos a combater doenças.

O principal objetivo dessa pesquisa é criar vacinas que possam ser usadas em regiões úmidas do corpo, como o nariz e a boca, que são as principais portas de entrada para vírus. No entanto, como destaca a revista Science, desenvolver algo para ser administrado nessas áreas é um desafio, devido às defesas naturais do corpo contra agentes estranhos.

Como a ideia surgiu e como os testes foram realizados?

A inspiração para essa descoberta veio de uma leitura sobre doenças gengivais. Harvinder Gill, engenheiro especializado em nanomedicina da Universidade Estadual da Carolina do Norte, contou à Science que se intrigou com o sulco gengival – o espaço entre os dentes e a gengiva – por sua notável capacidade de absorver moléculas. "Isso meio que acendeu uma faísca", comentou Gill, autor sênior do estudo. "Se for um meio permeável, não poderíamos usá-lo para vacinação?".

Com essa ideia em mente, Gill convidou um colega da Universidade Tecnológica do Texas para realizar um experimento inusitado: passar fio dental em um camundongo. Nos testes iniciais, um fio dental contendo uma proteína modificada para brilhar no escuro foi aplicado. Os resultados foram surpreendentes: a gengiva dos camundongos absorveu 75% da proteína.

Após dois meses de uso contínuo do fio dental, os animais apresentaram uma melhora significativa na resposta imunológica à proteína. Os cientistas observaram um aumento de anticorpos nos pulmões, nariz, baço e até nas fezes dos roedores.

Vacina antigripal e o futuro da pesquisa

Para validar ainda mais a eficácia do método, os pesquisadores incorporaram um vírus inativo da gripe no fio dental. Cerca de 50 roedores foram imunizados com o fio dental durante duas semanas, em um período de 28 dias. Após a exposição ao vírus real da gripe, todos os camundongos imunizados com o fio dental sobreviveram, enquanto os não imunizados morreram.

Os resultados foram promissores: os roedores sobreviventes apresentaram anticorpos na saliva, pulmões, baço, fezes e até nas células T, glóbulos brancos cruciais para a resposta imune. A presença de anticorpos na medula óssea dos camundongos indicou que o sistema imunológico estava completamente preparado pelo vírus inativo fornecido no fio dental. Essas respostas imunológicas foram consistentes com as obtidas por vacinas injetáveis ou administradas via nasal.

Agora, a equipe planeja testar a tecnologia em humanos. Um grupo de 27 voluntários saudáveis já usou um fio dental revestido com corante alimentício, e a proteína aderiu à gengiva de aproximadamente 60% dos participantes. Outros pesquisadores também estão interessados em explorar a eficácia desse método para o tratamento de doenças gengivais.

"Você pode imaginar ir ao dentista e seu médico administrar uma dessas vacinas durante a sua consulta", concluiu Gill, vislumbrando um futuro onde a ida ao dentista pode significar também uma dose de proteção contra doenças.

Fonte: revistagalileu.globo.com

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