"Achavam que era jogo": combatentes brasileiros expõem rotina de violência na Ucrânia

Brasileiros que vão lutar na Ucrânia dizem que muitos tratam a guerra como "jogo", mas encontram risco real, com drones e artilharia russa. Foto: Arquivo pessoal cedido ao UOL

"Muitos acham que é como um jogo e, quando chegam aqui, veem que é vida real." A frase é de Vicente*, 37, um dos brasileiros que se alistaram para lutar na guerra da Ucrânia contra a Rússia. O conflito, que já dura quatro anos, tem revelado mudanças no perfil dos combatentes estrangeiros e relatos de abusos sofridos por soldados brasileiros.

Segundo o geógrafo Tito Lívio Barcellos Pereira, pesquisador da Unesp e da PUC, no início da guerra muitos voluntários se identificavam ideologicamente com a causa ucraniana. Hoje, porém, os motivos para se juntar ao front estão mais ligados a ganhos financeiros, status e experiência militar. "As empresas aceitam todo tipo de soldado que esteja bem fisicamente", confirma Vicente, que antes trabalhava como comerciante no Brasil.

Autoridades ucranianas informaram ao governo brasileiro que 22 brasileiros morreram e 44 estão desaparecidos desde o início do conflito. O caso mais recente foi o do paraense Adriano Silva, atingido por fogo de artilharia. Vicente relata que, apenas na última semana, perdeu três colegas de batalhão.

Além dos riscos do campo de batalha, os brasileiros denunciam salários atrasados, maus-tratos e tortura. Vicente afirma estar com quatro meses de pagamento em atraso e conta que presenciou espancamentos durante cursos de formação. Outros dois soldados, convocados pela empresa brasileira Advanced Company, ligada ao grupo Revanche Tatical, relatam agressões, confisco de passaportes e atrasos salariais. As empresas não responderam aos pedidos de esclarecimento.

Os relatos incluem práticas de violência extrema: armas apontadas contra soldados, espancamentos, exposição ao frio intenso sem roupas, além de torturas físicas e psicológicas. "Colocaram arma na cara, deram chutes, murros, coronhadas, quebraram nariz e arrancaram unhas", descreve Vicente.

O recrutamento de estrangeiros ocorre por três vias principais: pela Legião Internacional do Exército ucraniano, por empresas privadas que atuam nas redes sociais e por veteranos que funcionam como olheiros. Para o pesquisador Pereira, os contratos são nebulosos e muitas dessas companhias acabam atuando como mercenárias dentro do país.

*O nome do entrevistado foi trocado para preservar sua identidade.

Fonte: noticias.uol.com.br

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